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Gorée, ilha-memória da escravidão, encontra sustento vital no turismo

Patrimônio Mundial da Unesco, a Ilha de Gorée, no Senegal, transforma seu passado doloroso em motor econômico e educativo para seus 1,7 mil moradores.

05/05/2026 às 11:25
Por: Redação

Situada na costa ocidental africana, a Ilha de Gorée, no Senegal, a menos de meia hora de balsa da capital Dacar, transforma seu passado doloroso em um motor econômico e educativo para seus cerca de 1,7 mil habitantes. O local, reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) desde 1978, atrai anualmente dezenas de milhares de turistas que buscam contato com a história e, ao mesmo tempo, impulsionam a economia local.

 

A ilha, que possui uma área de 17 hectares, equivalente a menos de 25 campos de futebol, é o destino turístico mais procurado em todo o Senegal, em grande parte devido à sua profunda carga histórica como memória viva do período da escravidão de africanos negros.

 

Um Passado de Sofrimento e um Presente de Oportunidade

 

Com uma localização estratégica de frente para o Oceano Atlântico, Gorée serviu como um entreposto crucial para colonizadores europeus, incluindo portugueses, holandeses, ingleses e franceses. Entre os séculos 15 e 19, a ilha foi um ponto de embarque forçado de africanos escravizados, enviados compulsoriamente para as Américas, com destinos como Brasil, Estados Unidos, Cuba, Haiti e o Caribe.

 

No coração da ilha encontra-se a Casa dos Escravos, uma edificação de dois andares onde os africanos eram aprisionados antes de serem forçados a passar pela emblemática “Porta do Não Retorno”. Este local é, hoje, o centro mais impactante de Gorée, funcionando como um museu e memorial da escravidão. Dados do censo de 2023 da Agência Nacional de Estatística e Demografia (ANSD), similar ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que Gorée possui atualmente cerca de 1,7 mil moradores.

 

Em abril, um mês após as Nações Unidas classificarem a escravização de africanos como o mais grave crime contra a humanidade, a Agência Brasil retornou à ilha e observou como o fluxo constante de turistas é essencial para a subsistência dos moradores, gerando oportunidades de trabalho e renda.

 

Vozes da Ilha: Turismo como Meio de Vida

 

Fama Sylla, uma senegalesa que aborda visitantes ainda no porto de Dacar para convidá-los a seu box de vendas de bijuterias e itens típicos, afirma que o turismo é vital. “O turismo é muito importante aqui porque vivemos disso, vivemos do turismo”, explica. Ela descreve que o ponto de venda, semelhante a galerias de artesanato no Brasil, é uma herança familiar: “Temos uma loja que era da minha avó. Isso continua até hoje, passou para minha mãe e para nós, os filhos”.

 

Próximo ao cais, Chaua Sall comercializa esculturas de madeira tradicionais, algumas representando animais africanos como girafas e hipopótamos. Vestido com um boubou, túnica típica da África Ocidental, ele expressa o desejo de vender “coisas bonitas para as pessoas”. Chaua lista a diversidade dos visitantes: “Aqui você recebe turistas de vários lugares: França, Espanha, Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Itália – pessoas do mundo todo vêm para a Ilha de Gorée”. Seu filho e irmão também dependem do turismo na ilha.

 

Aminata Fall, vendedora de acessórios, utiliza uma abordagem multilingue para se conectar com turistas, cumprimentando-os em diferentes idiomas, como “Bom dia” em português. No Senegal, os idiomas falados são o francês (oficial) e o wolof (de raiz africana). Ela destaca que as únicas atividades econômicas da ilha são a pesca e o turismo. “As mulheres têm lojas, e os homens pescam ou trabalham como guias turísticos. É assim que trabalhamos aqui nessa pequena Ilha de Gorée. Não temos fábricas, nada além de turismo e pesca”, ressalta. Aminata enfatiza a hospitalidade do povo de Gorée: “Somos muito gentis e acolhedores com pessoas do mundo todo que vêm visitar a Casa dos Escravos. E, depois da visita, se tiverem tempo, não as obrigamos a ir ao mercado, mas, se quiserem, podem passar lá para ver o que fazemos”. Essa característica, conhecida como “Teranga” na língua wolof, define a hospitalidade e carisma dos senegaleses, inclusive inspirando o apelido da seleção de futebol do país, os “Leões de Teranga”, que em 16 de junho estreará em sua quarta Copa do Mundo.

 

O artista Cheikh Sow, que utiliza uma técnica de cola e serragem colorida para criar quadros de paisagens africanas, demonstra sua arte ao vivo para os turistas. “Eu sou artista e deixei tudo para viver da pintura, para ganhar a vida com quadros, porque meus pais não tinham condições suficientes para nos sustentar”, relata à Agência Brasil. Ele acrescenta: “Por isso, preferi estudar na escola de belas-artes e, assim, consigo ganhar a vida. Também temos mulheres, temos filhos, e, com essas pinturas, até tentamos construir casas para viver melhor. A ilha é realmente calma e tranquila, não há grandes problemas, como a poluição”.

 

“Em relação à escravidão, procuramos deixar isso no passado. O essencial, para nós, jovens da ilha, é tentar todos os dias ganhar a vida da melhor maneira possível, sempre pelo caminho certo. É assim que vivemos hoje”, finaliza Cheikh Sow.

 

Lições do Passado para o Futuro

 

Mamadou Bailo Diallo, guia de turismo, realiza diariamente entre um e dois tours pela ilha. Durante as visitas à Casa dos Escravos, ele narra a história de Nelson Mandela (1918-2013), líder sul-africano que passou 27 anos encarcerado no regime do apartheid. Mandela, segundo Diallo, chorou ao passar alguns minutos em uma cela de punição de escravizados, uma emoção que o guia observa em muitos visitantes. “Eu percebo que algumas pessoas brancas choram. A escravidão é vergonhosa para elas. É uma questão de humanidade, não de cor”, diz o guia de turismo à Agência Brasil.

 

Um marco em Gorée homenageia Mandela, que se tornaria presidente da África do Sul anos após sua visita. A inscrição no monumento declara: “Ao fazermos a nossa luz brilhar, oferecemos aos outros a oportunidade de fazer o mesmo”.

 

Daouda Ndiaye, engenheiro civil de Dacar, visitou a ilha e a descreve como um local de grande importância para o Senegal e para todo o continente africano. Para ele, a ilha é um “espaço de memória, reflexão e de educação”.

 

“Este lugar representa uma memória viva, um capítulo doloroso da história que é essencial preservar para que nunca seja esquecido”, comenta Ndiaye à Agência Brasil. “Permite-nos homenagear os milhões de pessoas que sofreram e transmitir esta história às gerações futuras, para que possam aprender com ela”, completa. “Visitar este lugar convida a uma profunda consciência das consequências humanas da escravatura e da importância de defender a dignidade humana em todo o mundo”, conclui.

 

Gorée funciona também como uma sala de aula a céu aberto. Excursões com centenas de estudantes de escolas de Dacar visitam a ilha diariamente, transformando o turismo em uma ferramenta educacional. Os sons de animação e alegria desses grupos de crianças e adolescentes substituem, assim, o sofrimento que marcou Gorée séculos atrás.

 

*O repórter viajou a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Exterior.

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